Paciência de chinês
“Um momento de paciência pode evitar um grande desastre, um momento de impaciência pode arruinar toda uma vida” – provérbio chinês
Todos os países têm frases que demonstram a sua essência, mas não creio que haja algum que tenha como característica tão definidora o traço que podia salvar tantas pessoas e tantas nações: a paciência! isto significa ser amorfo e lento? Claro, se for levado ao extremo, mas o que significa neste caso é ser calculista, não desesperar, estar atento onde pomos os pés e perceber que ir demasiado depressa não significa necessariamente chegar primeiro.
Mas o que é a China? É uma nação, claro, mas nações há várias. A China é na verdade um país com 5.000 anos de história e isso significa algo, porque a maioria dos países não são tão antigos, aliás a maioria das nações existentes no planeta são recentes, claro que os povos, esses, há muitos, alguns extinguiram-se enquanto outros ainda se observam no planeta, mas nem todos têm ou tiveram nações e nem todos conseguem recuar numa linha continua e dizer: Sim! Nós descendemos daquela civilização de há 2.000 ou 5.000 anos.
Alguns dirão que é apenas um número com muitos zeros, mas é mais do que isso. Com a idade vem sabedoria, isto aplica-se às pessoas (na maioria dos casos) e aos países, não é a única coisa que importa, mas existe um sentido de responsabilidade e maturidade maior. A China nos momentos de impulsividade foi castigada, em momentos de disputas internas, milhões de mortos foi a consequência, quando transbordava de orgulho e olhava para os povos do norte como selvagens incapazes de organização, viu os senhores de guerra mongóis com as suas hordas a devastarem as suas terras, a vencer os seus exércitos, a escravizarem as suas pessoas e a fazerem de si mesmos donos e senhores da maior parte da China e quando olhou para os ocidentais em cima de barcos com madeira comida, como inferiores, mais tarde teve de lhes fazer cedências.
Todas as civilizações passam por ciclos e a China não é exceção, alturas de poder e abundância e alturas de fragilidade e humilhação, mas o importante é evitar a destruição total, pois ao evitar o colapso evitamos a extinção, a civilização é como uma porcelana, se a deixarmos cair num buraco escuro irá desaparecer e cair no esquecimento, se a partirmos, mas os bocados estiverem ao nosso alcance podemos com paciência voltar a colá-los e aprender que ao cair parte-se, mas não é esquecida.
A nação chinesa cometeu e continua a cometer erros, aliás pelas suas características governamentais e ideológicas há um grande número de assuntos que não temos acesso porque são abafados, mas é uma nação que após todos os desastres, especialmente os do século XX, compreende aquilo que é e percebe que o jogo geopolítico é longo e que os apressados podem ser os vencedores temporários, mas não serão aqueles que conectam os seus objetivos com o futuro do planeta.
Vamos a um exemplo claro, a situação de Taiwan. A China tem capacidade para invadir a ilha, mas é mais do que isso, há mais em jogo. Por que razão iria a China invadir Taiwan, arriscando-se a lidar com uma resistência interna, sanções económicas, uma possível retirada das indústrias ocidentais, uma intervenção americana, um isolamento internacional, etc.? Podem enveredar por outro caminho, o caminho da estabilização interna, o da centralização do poder, o do aperfeiçoamento das suas forças armadas, sim, podem agitar ocasionalmente a região com o envio de navios ao largo da ilha, uma ameaça repentina, mas não vai além disso. Os Estados Unidos gostariam de eliminar a ameaça oriental, mas para isso é necessária uma razão, e a China não lhe dá essa razão e olha para os Estados Unidos como uma nação dividida, com instabilidade interna, uma nação onde a possibilidade de guerra civil não é algo longe da realidade, a China para obter os seus objetivos resume-se ao provérbio e aplica-o na geopolítica.
Podemos pensar nos países como pessoas e tal como as pessoas, têm diferentes personalidades, países arrogantes, países preguiçosos, países orgulhosos, por aí adiante, a China é o paciente, é aquele que espera, mas está sempre atento, prefere jogar com a sua arma económica, investindo e comprando onde pode, fazendo-se de cínico quando necessário, nomeando-se a si mesmo como o menino correto, aquele que nada faz para prejudicar ninguém, é uma jogada arriscada e de longo prazo.
Quando observámos na última visita de Trump à China, o presidente Xi Jinping a apontar para uma árvore e dizer ao presidente Trump que a árvore tinha 300 anos, muitos viram uma tentativa de menosprezar os Estados Unidos, mas o ponto fulcral era a realidade, a árvore tinha realmente 300 anos, e três séculos de história num país milenar significa que não irá criar projetos para uma geração, mas sim para 50 gerações.
O tempo parece de facto ter uma dimensão diferente para a China e o tempo nos mostrará onde a estratégia de paciência os levará.



