Se ele ganhou eu também ganhei

Se ele ganhou eu também ganhei

No conflito iraniano-americano, observamos algo curioso, ninguém perdeu, todos somos vencedores! Isto faz-nos lembrar quando tínhamos sete anos, perdemos o jogo de futebol, e os nossos pais, para nos fazerem sentir melhor, dizem-nos que também ganhámos.

Mas o que é que isto nos revela? Creio que o que temos aqui é um caso que ocorre tantas vezes ao longo da história, em que, quando não há um dos lados que é obliterado, as duas fações orgulhosamente afirmam que resistiram e vergaram o adversário. Para quem aprecia história, especialmente história de guerra, provavelmente vamos de encontro a uma descrição que é usada em diversos conflitos que se chama inconclusivo, isto significa que, como nenhum dos lados recuou, perdeu uma porção de território substancial, sofreu a morte do seu líder(que não é o caso com este conflito, mas a sua substituição parece ocorrer com a mesma naturalidade que a prática de respirar), ou uma população de uma cidade inteira, então vamos de encontro a essa discrição, isto porque quando os dois ainda se mantem de pé, nenhum deles irá admitir a derrota, mas será isto verdade? Será que isto faz sentido? Por um lado, sim, mas aquilo que está em jogo não é apenas um teste de resistência para ver quem consegue aguentar mais murros na cara e continuar de pé, é sim, percecionar como é que os dois lados do conflito são vistos pelas suas populações, antes, durante, e depois, pois isso é de extrema importância, já que um regime pode galgar apoio em tempos de crise, ou pela existência da crise ser derrubado e se a juntar a este fator ainda tem a habilidade de conseguir manter a face no plano internacional, é o verdadeiro oito a oitenta.

Apesar de não termos fontes dessa época, conseguimos imaginar como seriam os conflitos e as histórias contadas durante os períodos mais primitivos da humanidade, quando os humanos ainda não tinham infraestruturas e formas de liderança e governo organizadas, já havia conflitos, pois não é necessário um alto nível de avanço tecnológico para existir belicismo. Sempre houve guerra, guerras tribais, não eram milhares de combatentes, mas sim dezenas e não havia propriamente uma tática desenvolvida, a não ser o fator surpresa e a experiência individual de cada um e se ambos os lados tivessem sobreviventes e conseguissem voltar para as suas respetivas tribos contavam histórias, aqueles que tinham perdido mais homens naquele dia provavelmente iriam exagerar a ferocidade e o número do adversário, isto é natural e inerente ao ser humano, e mesmo que nenhum dos lados exagere o relato, mesmo que seja contada de forma sóbria e real, continuamos a ser seres que tem a necessidade de justificar as nossas perdas. Se formos ao chão, mas o nosso adversário for maior então temos aí um fator justificativo para a queda. O conflito entre o Irão e Estados Unidos tem algumas parecenças com esta descrição, o Irão é um país forte, a nível populacional e territorial impõe respeito, isso é inegável, mas ao compararmos o Irão aos Estados Unidos, não estão equilibrados no peso. O Irão perdeu a marinha, o seu líder, houve milhares de civis mortos, mas a sua integridade territorial continua maioritariamente inviolada tal como a força do seu exército e para o Irão, que tem como objetivo principal a sobrevivência, a guerra está a ser um sucesso. Do lado americano, destruíram a marinha, mataram o líder, e fizerem centenas de bombardeamentos estratégicos, e tudo isto com pouco mais de uma dezena de mortos do seu lado, creio que se começa a perceber a lógica, tudo isto é uma questão de perspetiva. Claro que tudo indica que tal pode mudar, com as conversações a falharem em Islamabad, temos aqui um caminho aberto para uma escalada no conflito e uma possível futura retórica, ao nível do primeiro Imperador de Roma, Augusto, quando disse aos seus adversários: “É tempo de morrer”. Antes do conflito começar a população iraniana estava mais confiante nas suas próprias possibilidades de conseguir fazer cair o regime, isto aliado ao facto do Presidente Trump continuar a dizer que a ajuda estava a caminho. Que ela veio, isso não está em questão, mas não para os Iranianos, porque as guerras americanas no médio oriente têm sempre como primeiro objetivo auxiliar Israel. A juntar à ajuda prometida por Trump, tinham um homem que tudo indicava ser um possível próximo líder, o príncipe herdeiro Reza Pahlavi, alguns chamar-lhe-iam o Rei pedinte, mas tudo isso se desmoronou, com o ataque ao Irão e as mortes de civis. As manifestações pararam, não só em Teerão, como em todo o país e em outras partes do mundo, agora só de uma forma o regime cairá, e isso, será por vias de invasão. Mas uma invasão enfrenta inúmeras consequências e possibilidades, o manifestante de ontem contra o regime numa invasão pode-se tornar um soldado contra as forças americanas e é nestes casos que o campo entre amigo e inimigo ficam confusos, especialmente para uma potência que claramente não quer entrar com ferro e fogo em outra parte do mundo sem saber quando irá conseguir sair. Mais do que isto, aquilo que temos aqui é um caso clássico de dois cães a ladrar quando o portão ainda está fechado, se os dois recuassem neste momento seriam vistos como fracos, mas nenhum dos lados, e creio que isso é cada vez mais óbvio, nenhum quer verdadeiramente esta guerra, pois ao escalá-la alguém terá de perder. O Irão não se quer tornar num Iraque 2.0 e os Estados Unidos não querem que este seja o conflito relembrado por terem recuado perante um adversário militarmente, economicamente e tecnologicamente inferior.

Share this post